A ORIGEM DO VRV/VRF
Introdução
Split, do inglês, significa “dividido” ou “separado”. A evolução do ACJ (Aparelho Compacto de Janela) levou à separação do equipamento em duas partes: unidade interna (evaporadora) e unidade externa (condensadora).
Multi-split é um termo que surgiu em meados da década de 1970 para se referir a um sistema no qual uma única unidade externa possui capacidade para atender mais de uma unidade interna, otimizando o controle de potência dos compressores.
Nesse contexto, surgiram os primeiros equipamentos bi-split, tri-split e quadri-split, nos quais um único compressor era capaz de suprir duas ou mais unidades internas.

O multi-split foi desenvolvido pela Daikin em 1973 e, juntamente com outros estudos e avanços tecnológicos da época, serviu de base para desenvolvimento do primeiro VRV.
Na década de 1980, surgiu o primeiro sistema VRV/VRF, representando um avanço do conceito de multi-split, agora com maiores limites de comprimento de tubulação e maior quantidade de unidades internas suportadas.
Cabe lembrar que os termos VRV/VRF são marcas e pertencem à família dos sistemas do tipo multi-split, tema abordado em introdução aos sistemas de climatização.

Conceito
VRV ou VRF, do inglês Variable Refrigerant Volume / Variable Refrigerant Flow, trata-se de um sistema de expansão direta no qual a quantidade de fluido refrigerante presente nas tubulações é variável, ou seja, ajusta-se de acordo com a quantidade de unidades internas em operação, seja no modo frio, quente ou automático.
Nesse tipo de sistema, é possível utilizar diversos modelos de unidades internas com capacidades variadas entre si, ocupando pouco espaço, otimizando a operação e reduzindo a quantidade de motores em funcionamento e diminuindo o consumo de energia. Além disso, conta com recursos de automação para controle e monitoramento a partir de qualquer local do mundo.
Esse arranjo permite controle personalizável, com aplicação em projetos residenciais, comerciais e industriais.
Trata-se de um sistema pertencente à família dos multi-split, no qual é possível incluir várias unidades internas, desde que sejam respeitadas as condições e limites pré-estabelecidos por cada fabricante. Aliás, limites é a palavra-chave para compreender e obter sucesso no projeto, instalação e manutenção desse tipo de sistema.
Desde sua criação, os fabricantes passaram a diferenciar claramente o termo multi-split do termo VRV/VRF. O multi-split evoluiu e consolidou-se como uma solução voltada a poucos ambientes e aplicações de menor porte, enquanto o VRV/VRF incorporou tecnologia avançada, automação embarcada, diversos dispositivos de proteção e segurança, além de capacidades operacionais significativamente superiores.
Origem do VRV
Ao lado (abaixo na versão mobile), uma imagem rara do primeiro VRV do mundo, desenvolvido por engenheiros da Daikin, gigante mundial do ar-condicionado.
Na época, os prédios estavam cada vez mais compactos, caros e de uso misto, além disso, houve duas grandes escassezes industriais: a crise do petróleo em 1973 e em 1979, o Japão importava mais de 90% do petróleo que utilizava, esse contexto motivou a origem do VRV.
O governo cobrava da indústria soluções tecnológicas eficientes para combater a escassez energética. Soma-se a isso o fato de que o segmento de ar-condicionado figurava entre os principais responsável pelo elevado consumo de energia. Novas tecnologias não eram apenas uma questão de economia, mas também de sobrevivência.
Logo, no segmento de ar-condicionado, a Daikin concentrou esforços a fim de encontrar uma solução para prédios de pequeno e médio porte e em 1979 começou o desenvolvimento do primeiro VRV, lançado em 1982 no Japão, o VRV C Series.
Ao contrário do que muitos imaginam, o VRV C Series estava longe do formato com o qual o conhecemos hoje, operava somente no modo frio, possuía apenas compressores fixos (on/off), era limitado a seis evaporadoras, a comunicação entre as unidades era em 200 volts e foi lançado utilizando o então consagrado fluido R22, os mecânicos da época sabem do que estou falando.
Existia nos modelos de 10 e 15 HP, com dois e três compressores respectivamente e com capacidade nominal a 60 Hz de 49.200 BTU/h por compressor.

JAPÃO
O BERÇO DA CLIMATIZAÇÃO MODERNA
AS SETE EMPRESAS HISTÓRICAS QUE CONSTRUÍRAM AS RAÍZES E OS FUNDAMENTOS DA TECNOLOGIA VRV/VRF
Gigantes do VRF
Como conceitos, ideias e princípios teóricos não podem ser patenteados, somados à forte pressão energética e industrial exercida pelo governo e a uma cultura profundamente voltada à engenharia e à melhoria contínua, as gigantes japonesas também desenvolveram, na mesma época, seus próprios sistemas de volume de refrigerante variável.
Em 1984, grupos como Mitsubishi Heavy Industries, Hitachi, Mitsubishi Electric e Toshiba lançaram suas próprias soluções.
Em 1985, a Panasonic deu um passo estratégico ao lançar o primeiro VRF GHP do mundo, equipado com motor a gás, desenvolvido para atender às particularidades do mercado japonês. Apenas alguns anos depois, em 1989, a empresa ampliou seu portfólio ao introduzir o VRF com motor elétrico.
Até aqui, tudo no mercado japonês.
A Fujitsu General, por sua vez, ingressou no mercado de sistemas VRF posteriormente, em 2001, consolidando o grupo das gigantes japonesas que moldaram a evolução da tecnologia VRV/VRF e estabeleceram as bases do padrão que hoje domina aplicações comerciais e industriais em todo o mundo.
A Daikin de imediato tornou o termo VRV uma marca exclusiva (patente) do grupo, enquanto o termo VRF é uma designação genérica, não registrada, adotada por diversos fabricantes.
Mesmo utilizando um termo genérico, os demais fabricantes criaram suas próprias para os seus sistemas multi-splits.
A Mitsubishi Heavy adotou o nome Hyper Multi; a Hitachi, Set Free; a Mitsubishi Electric, City Multi; a Toshiba, SMMS; a Panasonic, ECO i; e a Fujitsu General, Airstage. A Daikin, VRV.
Com a eletrônica de controle e potência em plena ascensão, a Hitachi, pioneira no desenvolvimento de semicondutores e sistemas multi-split, lançou, em 1984, seu primeiro sistema VRF e, em 1986, o primeiro VRF do mundo equipado com tecnologia inverter.
O primeiro multi-split inverter da Daikin e o uso do termo VRV surgiram apenas em 1990, após um projeto de três anos dedicado ao desenvolvimento do inversor – avanço viabilizado pela redução dos custos dos semicondutores e pela evolução significativa de seu desempenho, impulsionada por outros fabricantes.
A menção mais antiga encontrada do termo VRF data de janeiro de 1997, em publicações da Hitachi.
Após todos esses anos de experiência e análise histórica, chego à conclusão de que o desenvolvimento do VRF não pode ser atribuído o mérito isolado de um único fabricante.
Embora a Daikin tenha desempenhado um papel fundamental ao consolidar, padronizar e difundir o conceito, é inegável que todos os grandes fabricantes japoneses foram essenciais para a criação, evolução e maturação dessa tecnologia.
Empresas como a Hitachi, por exemplo, tiveram participação decisiva no avanço dos semicondutores e da eletrônica de potência, elementos indispensáveis para o controle preciso de inversores e compressores.
Mitsubishi Electric, Mitsubishi Heavy, Toshiba, Panasonic e Fujitsu também contribuíram de diferentes formas, seja no desenvolvimento de compressores, motores, sistemas de controle, protocolos de comunicação ou eficiência energética.
O VRF, portanto, não é resultado de um único gênio industrial, mas sim da soma de décadas de pesquisa, concorrência técnica saudável e cooperação indireta entre os gigantes da indústria japonesa.
Esse ambiente de inovação coletiva foi o verdadeiro motor que permitiu ao sistema atingir o nível de confiabilidade, desempenho e sofisticação que conhecemos hoje. O resto é história.

1986, 2º Geração VRF Hitachi – Primeiro inverter do mundo – Set Free

1984, Primeiro VRF Mitsubishi Heavy – Hyper Multi

1984, Primeiro VRF Mitsubishi Electric – City Multi

1985, Primeiro VRF Toshiba – SMMS

1985, Primeiro VRF GHP do mundo – Panasonic

2001, Primeiro VRF Fujitsu General – Airstage S
QUER SE TORNAR UM PROFISSIONAL EM VRV/VRF
O PAÍS
“Entenda a importância histórica e tecnológica do Japão, país responsável pelo desenvolvimento dos primeiros sistemas VRV/VRF, e como sua cultura de engenharia influenciou a climatização moderna no mundo.”

País localizado no leste da Ásia, formado por um arquipélago de ilhas no Oceano Pacífico, o Japão teve sua origem histórica consolidada no ano de 660 a.C., data tradicionalmente associada à ascensão do Imperador Jimmu, considerado o fundador da nação japonesa segundo os registros históricos e mitológicos do país. Ao longo dos séculos, essa formação deu origem a uma civilização marcada pela combinação entre tradição, disciplina e capacidade de adaptação tecnológica.
Com uma população em torno de 125 milhões de habitantes, o país apresenta elevado nível de urbanização e desenvolvimento tecnológico.
Seu sistema de governo é uma monarquia constitucional parlamentar, no qual o Imperador exerce papel simbólico, enquanto o Primeiro-Ministro e o parlamento conduzem a administração do país.
Administrativamente, o Japão é dividido em 47 prefeituras, responsáveis pela organização regional e pelo planejamento de infraestrutura e indústria.
A cultura japonesa valoriza princípios como precisão, eficiência, respeito aos processos e melhoria contínua, características que influenciaram diretamente o desenvolvimento industrial e tecnológico do país.
Esse ambiente foi fundamental para que o Japão se tornasse referência mundial em engenharia e inovação.
Foi nesse contexto que surgiram os sistemas conhecidos internacionalmente como VRF (Variable Refrigerant Flow), uma tecnologia que revolucionou a climatização ao permitir maior eficiência energética, controle individualizado dos ambientes e flexibilidade de aplicação.
Empresas japonesas como Daikin, Mitsubishi Heavy Industries, Mitsubishi Electric, Hitachi, Panasonic, Toshiba e Fujitsu General desempenharam papel decisivo na evolução e disseminação dessa tecnologia, consolidando o Japão como o principal berço e referência global no desenvolvimento destes sistemas.